Luis Fernando Veríssimo teceu um comentário no jornal O Estado de São Paulo, em 13 de março de 2008, sob o título ‘Pedro e Paulo’, no Caderno 2, pág. D14, o que motivou-me a escrever sobre Mateus 16, verso 18.
A visão de Veríssimo é desfocada da ideia bíblica, porém, não vejo nele dolo, uma vez que ele segue as premissas difundidas nos meios acadêmicos, que não tem por base as Escrituras, antes segue as especulações históricas.
Ele afirma em seu artigo, que contém (é) uma critica ácida à riqueza do Vaticano, que:
-
Jesus apresentou o primeiro trocadilho registrado da história quando disse que;
-
Pedro era a pedra sobre a qual Jesus haveria de erguer a sua igreja, porém;
-
Apesar da fala de Jesus de que ele edificaria a sua igreja, foi o apóstolo Paulo quem a construiu.
Em primeiro lugar, não foi Jesus quem deixou registrado o primeiro trocadilho da história, uma vez que no Antigo Testamento encontramos inúmeros trocadilhos. Um exemplo de trocadilho está registrado em Isaias: “Ai de ti, Ariel, Ariel, a cidade em que Davi assentou o seu arraial! Acrescentai ano a ano, e sucedam-se festas. Contudo sitiarei a Ariel; pranteará e lamentará, será para mim como a lareira do altar” (Isaias 29: 1- 2).
A palavra hebraica transliterada como nome próprio ‘Ariel’, na verdade significa ‘lareira de Deus’, uma referência a cidade de Jerusalém, onde ficava o templo e o altar do sacrifício.
Como é próprio à poesia hebraica privilegiar as ideias em lugar da rima, Isaías fez um trocadilho, dando a entender que, de local onde se oferecia sacrifício, um dia, a própria cidade de Jerusalém passaria a ser, ela mesma, um altar de sacrifício.
A poesia hebraica favorece o surgimento de ‘trocadilhos’ e um trocadilho bem conhecido e citado por muitos está no livro de Jeremias: “Maldito o homem que confia no homem” (Jeremias 17: 5). Ora, a maldição não recai sobre quem confia em seus semelhantes, até porque, as relações humanas são regidas por confiança mutua, antes, a ideia que o texto procura transmitir é: maldito o homem que confia na força do seu próprio braço, ou seja, o homem que deixa de confiar em Deus e passa a confiar em si mesmo (Jeremias 17: 5 e 7 ; Pv 3:5 ), o que já contraria o posicionamento de Veríssimo de que o ‘trocadilho’ feito por Jesus é o primeiro da história “Pedro era a pedra sobre a qual se ergueria sua igreja, disse Jesus, no primeiro trocadilho registrado pela História, mas foi Paulo quem a construiu” Luiz Fernando Veríssimo, jornal O Estado de São Paulo, em 13 de março de 2008, sob o título ‘Pedro e Paulo’, no Caderno 2, pág. D14.
Mas, admitir que a fala de Jesus é um trocadilho, resta apenas o entendimento de que o apóstolo Pedro não era e não foi a ‘pedra’ sobre a qual Jesus ergueria a sua igreja "Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" ( Mt 16:18 ).
Na primeira leitura do texto se depreende que o apóstolo Pedro seria a pedra fundamental sobre a qual a igreja haveria de ser erguida, porém, como toda a bíblia depõe contra esta primeira leitura, certo é que este é o caso de um ‘trocadilho’, pois o apóstolo Pedro não era a pedra fundamental (pedra de esquina), antes o próprio Cristo, como o próprio apóstolo atesta em uma de suas epístolas "E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina" ( 1Pe 2:7 ).
Um mal entendido semelhante a este foi registrado pelo apóstolo João e, ele mesmo procura desfazer o entendimento equivocado acerca da fala de Jesus: "Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu. Divulgou-se, pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti?" ( Jo 21:21 -23).
Lucas, o médico amado, registrou um discurso do apóstolo Pedro em que é demonstrado que Jesus é a pedra angular “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:11 -12). (sequencia na próxima edição)

